Em 11 de dezembro 1913, foi alcançado o principal objetivo da Estrada de Ferro Maricá. Finalmente o transporte de cargas da indústria salineira da Região dos Lagos (Araruama, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio) teve sua meta conquistada através do ramal ferroviário que ligou Neves em São Gonçalo, na baia de Guanabara até a Lagoa de Araruama. O transporte de passageiros teve também um ganho significativo para as pessoas que precisavam ir e vir aos grandes centros. Também deve ser levado em conta que foi a partir deste acontecimento que a comunicação entre cidades melhorou significativamente dos correios ao telégrafo que caminhavam juntos com a chegada do trem nas cidades, como também os serviços que antes eram inexistentes ou até mesmo feitos de forma rudimentares com bastantes dificuldades. O contato maior com a capital do Estado Rio de Janeiro (DF) passou a ser diário, além de notícias vindas através de jornais e revistas que tinham maiores frequências, e que, oralmente, eram feitas pelos caixeiros viajantes, informando as atualidades do momento dos grandes centros. No mesmo ano foi aberto ao tráfego, a parada de Ponte dos Leites entre Bacaxá e Araruama, no km 34,458 distante de Nilo Peçanha, ou 99,750 da estação de Neves.
Em 1936, conforme documento técnico do Prefeito da época, Antônio Alves Branco, a única via férrea que cortava o município era a Estrada de Ferro Maricá que atendia satisfatoriamente. Dentro do município, ela atendia as seguintes localidades através da estação e paradas: Ponte dos Leites, estação Araruama, parada do Km 126 e estação Iguaba Grande (que parte da localidade pertencia a Araruama e a outra parte a São Pedro da Aldeia). Esta estrada cortava o município numa extensão de 20 km.
Em agosto de 1938, o Sr Sotero Luiz Pimentel, com 16 anos, consegue sua vaga de praticante aprendiz gratuito na Estrada de Ferro Maricá, lotado na cidade de Araruama. Seu primeiro instrutor foi o chefe imediato Flávio Aguiar de Souza que lhe ensinou a ordem do ofício: código Morse, despacho de bagagem e licença para prosseguimento do trem para as cidades mais próximas. O trem que atendia esse ramal era o SM-1 que partia de Neves, em São Gonçalo, com destino a Cabo Frio e o SM-2 que partia de Cabo Frio com destino a Neves. Estas composições tinham a letra M de misto, pois transportavam passageiros e bagagens. Conforme disse Sr. Sotero: “dois vagões eram para transportar produtos como cereais, sal, cal, peixe, couro e salgado”.
TABELA 1 - PRINCIPAIS PRODUTOS TRANSPORTADOS PELA E.F. MARICÁ:
Principais Produtos Região Exportados para localidades conforme Frfretes feitos na estação Araruama
Areia das dunas de Cabo Frio Fábrica de vidros em São Gonçalo
Resíduo de salina Fábrica de gesso
Cal Petrópolis
Sal Zona da mata e cidades de MG e GO
Couro salgado suíno Curtume Juiz de Fora/MG
Aves, ovos, suínos e caprinos Feira de Neves
Urucum e algodão Fábrica de tecidos – Barreto/SG
Camarão, perumbeba e tainha Feira de Neves
Segundo o ensaio de levantamento estatístico do Município de Araruama preparado pelo Prefeito interventor, Sr. Antônio Alves Branco previu o orçamento para o ano de 1936 com destaque para os maiores produtos em contribuição de impostos:
TABELA 2 - IMPOSTOS ARRECADADOS NO MUNICÍPIO
Imposto sobre a produção do sal 28.000#000
Imposto indústrias e profissões (50% do faturamento anual) 20.000$000
Alvarás de licenças 16.000$000
Obs.: os demais impostos não chegaram a dois dígitos.
A quantidade de sal despachada era tamanha que a E.F. Maricá colocou um desvio até o cais na Praia de Araruama. Segundo o Sr. Sotero, aproximadamente 30 lanchas ficavam ancoradas nas proximidades aguardando atender aos pedidos para remessas solicitadas.
Sobre o aspecto social, o grande momento do trem em Araruama era o Natal e o Ano Novo, quando o trem era lotado de passageiros que vinham visitar familiares e amigos no balneário.
Em 21 de abril de 1947, era 15h43min, quando o apito do trem anuncia a chegada em Araruama de Dona Nely Jardim e seu marido, o recém-empossado chefe da estação Araruama, o Sr. Aníbal Vicente Jardim que chefiou a estação de Araruama por mais de dez anos. Dona Nely conta que, quando chegou, encontrou a casa da estação vazia, em uma bela chácara com diversos pés de frutas e uma enorme cisterna, dada a falta de água que naquele período era comum. Ela conta que o Sr. Aníbal despachava cabrito, aves, ovos, sal, cal de marisco, além de inúmeros passageiros que viajavam para Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio. Ela conta, ainda, que havia o trem mata-sapo (os referidos trens eram automotrizes na época foram apelidados pelos populares como mata-sapo, em virtude dos ditos trens circularem a noite e madrugada, funcionava sábado e domingo. A tripulação do trem era de um maquinista, um foguista e dois guardas freio.
TABELA 3 - SERVIDORES DA ESTRADA DE FERRO MARICÁ
Item Funcionário Apelido Função Observação
1 Jose Souto de Avelar Agente Araruama
2 Sinzidio de Fal Agente Araruama
3 Elias Saldanha Agente Araruama
4 Gumercindo Saraiva Peixoto Agente Araruama
5 Flavio Aguiar de Souza Agente Araruama
6 Benoniz D. Correia Agente Araruama
7 Mário Resende Mendoça Agente Araruama
8 Aníbal Vicente Jardim Agente Araruama
9 Braulio
Os principais comerciantes que utilizavam o trem para escoar seus produtos foram: Joaquim Moreno, José Vicente e Clemente Soares. Segundo o Sr. Sotero e o Sr. Clemente era “um mulato que gostava de vestir-se muito bem e costumava dizer que as melhores moças de Araruama estavam aos seus pés.”
Dona Nely conta que as viagens de trem eram momentos de muito encanto, beleza e felicidade, pois era o momento de passear com a família. Esses passeios se transformavam em piqueniques. Costumava levar um farnel com galinha assada, arroz, farofa e macarronada. Nas estações por onde passavam existiam vendedores ambulantes de pastéis, peixe frito, arroz doce com amendoim, sola e sonhos.
A Estrada de Ferro Maricá construiu um ramal ferroviário com instalação de um terminal da estação Araruama no centro até a praia do centro, em Araruama, onde hoje se localiza a estação rodoviária. Encontravam-se ali os vagões da Estrada de Ferro Maricá para facilitar o escoamento do sal, inaugurando, assim, uma forma de transporte modal. Dezenas de lanchas aguardavam no porto, próximo ao terminal ferroviário, para abastecer os vagões com toneladas de produtos destinados aos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.
Havia, entre as linhas ferroviárias brasileiras, um acordo que permitia o transporte de cargas e passageiros entre si da origem ao seu destino final. Em relação a este serviço podemos citar, como exemplo, a comercialização do sal que partia da estação Araruama com destino a Anápolis no Estado de Goiás. Este serviço era realizado entre cinco companhias ferroviárias diferentes que tinham tabelas de preços distintas entre si.
Produto comercializado na estação de Araruama com destino a Anápolis Goiás.
Item Linha Ferroviária Origem Destino / Baldeação Destino Fim
01 Estrada de Ferro Maricá Araruama Niterói Anápolis GO
02 Estrada de Ferro Leopoldina Niterói Praia Formosa Anápolis GO
03 Estrada de Ferro Central do Brasil Praia Formosa Cruzeiro Anápolis GO
04 E. F. Mineira de Aviação Cruzeiro Goiandira Anápolis GO
05 Estrada de Ferro Goiás Goiandira Anápolis Anápolis GO
FONTE: JORNAL HORA CERTA, ED 50
Estes produtos eram transportados por ferrovias que tinham bitola de linha diferenciada. A Estrada de Ferro Maricá e a Leopoldina possuíam o mesmo tipo de bitola, o que favorecia as suas operações comerciais e mesmo por terem suas estações com o mesmo ponto de origem. Eram chamadas de ferrovias filiadas e possuíam a nomenclatura (tipo convênio entre si). No entanto, as linhas eram interligadas por estações e ramais ferroviários que interligavam cidades e estados. Este convênio possibilitava aos funcionários das filiadas os privilégios concedidos aos funcionários e aos dependentes, ao direto do passe de férias que possibilitaria a viagem de trem por todo o território, onde as filiadas fossem ligadas pelo sistema.
Outro exemplo, em relação ao destino do sal, é que era comercializado das salinas de Cabo Frio, São Pedro da Aldeia e Araruama para o consumo do Estado de Minas Gerais, na localidade da zona da mata. Este serviço era realizado pela Estrada de Ferro Maricá e baldeado em Niterói para a Estrada de Ferro Leopoldina que atendia as cidades de Porto Novo do Cunha, Ponte Nova, Tocantins, Viçosa e Leopoldina. O sal era comercializado conforme mencionado anteriormente, utilizando as duas linhas ferroviárias.
Conforme citado no primeiro capítulo, Hobsbawn menciona a interligação da ferrovia com o transporte marítimo. Podemos observar que este exemplo contempla a iniciativa realizada no século XX quando do transporte do sal que tinha como origem a Lagoa de Araruama, onde o produto era transportado por barcos até o porto por onde era embarcado no trem para diversas localidades do país como, por exemplo, o sal, destinado à cidade de Januária em MG, segundo depoimento oral do chefe de Estação de Iguaba Grande quando despachava este tipo de serviço.
(JORNAL HORA CERTA, 2008):
Item Linha Ferroviária Origem Destino / Baldeação Destino Fim
01 Estrada de Ferro Maricá Araruama Niterói Januária
02 Estrada de Ferro Leopoldina Niterói Praia Formosa Januária
03 E. F. Central do Brasil Praia Formosa Pirapora (MG) Januária
FONTE: JORNAL HORA CERTA, ED. 50 (RESGATE CULTURAL)
Em Pirapora era feito a baldeação da Estrada de Ferro Central do Brasil para a Companhia de Navegação Fluvial do rio São Francisco com destino a Januária. É importante ressaltar que o frete comercializado pela Estrada de Ferro Maricá tinha o seu destino fim em Januária (MG). Localidades como Iguaba Grande, até 1954, não passava de um lugarejo, ainda sob uma disputa territorial entre os municípios de Araruama e São Pedro da Aldeia. A ferrovia foi fundamental para o desempenho do município de Araruama que tinha o privilégio de possuir quatro estações em seu limite territorial: Araruama, Ponte dos Leites, uma para o Engenho Novo e, em seu limite geográfico, com o município de São Pedro da Aldeia, a estação de Iguaba Grande.
Segundo o ensaio de levantamento estatístico do Município de Araruama de Arthur Valle Junior (1937) que definiu a agricultura como:
A produção agrícola, ultimamente, tem diminuído sensivelmente. Em 1935 mais se acentuou este decréscimo devido ao êxodo de trabalhadores rurais que procuram os serviços de prolongamento da Estrada de Ferro Marica. Aquele ano piorou a situação devido ao prolongamento da seca.
(VALLE JUNIOR, 1937 p. 39).




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