A história da Estrada de Ferro Maricá teve o seu início no final do século XIX, ainda no segundo reinado de Dom Pedro II. Nesta época, a sociedade organizada tinha a frente o Barão de Inoã, junto à comunidade eclesial católica, comerciantes, fazendeiros e população da Vila de Maricá, tornando possível a construção de um ramal ferroviário pioneiro e pondo em prática os anseios de toda a população de Maricá, Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, e as cidades de Armação dos Búzios e Arraial do Cabo.
A construção da Estrada de Ferro Maricá ocorreu no ano de 1885, período em que foram assinados, pelo Presidente da Província, os decretos que davam a concessão aos seus representantes. Em primeiro momento, foi assinada a Lei nº 2799, de 17 de novembro de 1885, que concedia aos engenheiros José Thomas de Aguiar, Castro Ruas Joaquim e José Barrão, o privilégio da construção de uma estrada de ferro de Alcântara até a Vila de Maricá. No entanto, outras mudanças foram feitas pela Assembleia Legislativa Provincial para privilegiar a sociedade de Maricá. Neste sentido, várias mudanças de donatários foram realizadas, até que o trem andasse nos trilhos. O Barão de Inoã, como era comerciante da Vila de Maricá, foi um dos que participaram da fundação do ramal ferroviário.
O Barão de Inoã, como grande incentivador da implantação da Estrada de Ferro Maricá, fazendeiro e conhecedor do desen- volvimento industrial e técnico da Europa, estava em constantes viagens, principalmente a Paris. O barão era sogro do historiador Joaquim Nabuco e dono de muitos títulos de nobreza, além de sempre receber em sua fazenda a visita de nobres e até mesmo da família imperial.
No contexto de uma sociedade marcadamente patriarcal e patrimonialista, José Antônio Soares Ribeiro identificou sua imagem na oligarquia fluminense como benfeitor, atuando na construção de estradas, pontes, escolas e outros melhoramentos.
As condições necessárias para se construir o ramal ferroviário de Maricá ficaram definidas a partir daquele momento. No entanto, foi constituída, pela sociedade local, uma comissão para que, com o apoio da oligarquia local, desenvolvesse o projeto a contento do investimento necessário, para que obtivesse êxito. A comissão foi constituída em 1887, às vésperas da Proclamação da República, tendo a frente o fazendeiro José Antônio Soares Ribeiro, Barão de Inoã, que fez valer o importante projeto para a Vila de Maricá.
O Barão de Inoã contava com nomes ilustres como: Barbosa de Oliveira, Caetano Rodrigues, Cesário Alvim, Padre Araujo Gama, Padre Henrique e o Coronel Joaquim Mariano Álvares de Castro, todos os membros ativos da comunidade política flu- minense. Esta comissão idealizadora para construção da ferrovia tinha como tarefa que ‘os enchia de esperança e orgulho’. Cabe ressaltar que toda empreitada de construção da Estrada de Ferro Maricá foi realizada sem dinheiro dos cofres do Império.
(Maricá Já, 2003, p. 2 e 3).
Em curto período foram realizadas diversas mudanças contratuais para atender o interesse de construir essa Estrada de Ferro Maricá, com o forte objetivo de ligar as localidades envolvidas no percurso do trem. Os vários processos de negociações ocorridos para que fosse consumada a construção da estrada de ferro Maricá ocorreu no ano de 1885, período que foi deferido, pelo presidente da província, o Decreto-Lei nº 2799 de 17 de novembro, concedendo a José Thomas de Aguiar, Castro Joaquim e José Barrão, os três engenheiros, em primeiro momento, tiveram a concessão da Estrada de Ferro Maricá. Foi mais uma atitude técnica por parte do governo imperial do que uma atitude formalizada pela sociedade de Maricá. Para isso ocorreram mudanças durante a construção de uma estrada de ferro de Alcântara até a Vila de Maricá. No entanto, outras mudanças foram feitas pela Assembleia Legislativa Provincial, até essa ferrovia, de fato, ser construída.
Em 12 de julho de 1887 foram descritos, pelo relatório pro- vincial, as seguintes considerações, que beneficiaram o transporte entre as cidades de Alcântara até Itapeba:
As obras desta estrada foram iniciadas a 12 de julho de 1887. Tem a linha 39.209 metros de extensão, dos quais 30.964 em alinhamento reto e o mais em curvas com raio de 60 metros. A bitola é de 0,76m entre trilhos, que são de aço tipo Vig- nolli, de 15 quilos por metro, corrente e locomotivas de 15 to- neladas em serviço. O material rodante consta de 3 locomotivas, 3 carros de passageiros e 10 vagões de mercadorias. Está em tráfego o trecho desde a estação do entroncamento, no Alcântara, e a parada de Itapeba, no quilômetro 34, sendo de presumir que até o final do ano ficará toda a estrada aberta ao público. A renda, de 25 de novembro, data da abertura ao tráfego do Alcântara ao Encantado, até 31 de dezembro do ano passa- do, foi de 66$740 e a despesa de 1:115$621. Por ato de cinco de setembro, prorroguei por seis meses o prazo fixado no contrato para a conclusão das obras.
(Relatório, 1887, p. 54).
Diante deste contexto, podemos perceber várias mudanças ocorridas durante a implantação da malha ferroviária em Maricá. A partir deste momento, renasceu na Vila de Maricá a prosperidade, ao oferecer o transporte de cargas e de passageiros. Tal fato contribuiu para o desenvolvimento das cidades que viviam às margens da ferrovia. A implantação da ferrovia de Alcântara a Itapeba, em Maricá, executada até 12 de Julho de 1887, acarretou mais de 30 km de extensão de rede, trazendo, naquele momento, lucratividade para empresa.
A implantação da Estrada de Ferro Maricá saía dos proje- tos e decretos e começava, de fato, a construção da ferrovia. Em seus primeiros trechos de construção, o material que compunha a estrada de ferro – como trilhos e matérias –, era transportado pela própria locomotiva que se deslocava com destino à linha de Maricá. Neste primeiro momento, todas as matérias eram transportadas pelo próprio trem.
A Estrada de Ferro Maricá já previa, a partir de 1889, prolongar a rede ferroviária até as margens da Lagoa de Araruama (Iguaba Grande), pertencente ao Município de São Pedro da Aldeia. Em mensagem da Assembleia, este projeto foi amplamente discutido no legislativo, sob a Lei nº 157, de novembro de 1894.
Através do Decreto n° 554, de 28 de setembro de 1889, o Governo do estado do Rio de Janeiro concedeu licença, nos termos da Lei n° 157, de 17 de novembro de 1894, a “Companhia Lavoura e Colonização de São Paulo”, para prolongar a linha da E. F. Maricá, até a margem da lagoa de Araruama.
(Mensagem da Assembleia Legislativa de 1894)
A necessidade de ampliar a linha ferroviária era premente. Estudos e projetos, até mesmo por outras empresas, já haviam feitos, neste momento, e as condições necessárias apontavam para estender o Ramal da Estrada de Ferro Maricá até a Lagoa de Araruama.
O primeiro trecho da Estrada de Ferro Maricá apresentou superávit em relação às outras empresas que funcionaram no vermelho.
O quadro abaixo mostra o desempenho econômico-financeiro frente as 10 maiores empresas ferroviárias nacionais no ano 1901.
Estrada de Ferro
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Déficit
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Superávit
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Ext. Km
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01
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E.F. Leopoldina Rail-
way Company
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2.212: 518$728
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1.440.926
|
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02
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E.F. Sapucahy
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214:243$924
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130.500
|
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03
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E.F. Santa Maria
Madalena
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83:058$543
|
27.620
|
|
04
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E.F. Vassouras, Paty do Alferes e Petró- polis
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431:027$780
|
100.000
|
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05
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E.F. Resende a
Bocaina
|
13:751$732
|
28.336
|
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06
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E.F. Angra dos Reis a
Barra Mansa
|
38:497$732
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07
|
E.F. Teresópolis
|
19:695$732
|
25.680
|
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08
|
E.F União Valenciana
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11:441$486
|
63.000
|
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09
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E.F. Maricá
|
22:803$315
|
61.000
|
|
10
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E.F. Rio das
Flores
|
18:643$165
|
62.300
|
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Total:
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3.012:794$171
|
52:887$966
|
1.939.362
|
Percebe-se que, mesmo com um déficit muito grande das empresas ferroviárias nacionais, a Estrada de Ferro Maricá apresentava saldo positivo em momento muito difícil. Além disso, a manutenção de rede e a pouca extensão de linha de sua autonomia comercial tornava necessário ampliar as linhas para obter maiores recursos por meio de fretes de cargas e de passageiros de localidades mais próximas.
Neste primeiro momento da ferrovia em direção a Maricá ocorreram diversas mudanças de comando e de donatários. Mesmo assim, em alguns momentos, a Companhia Estrada de Ferro Maricá seguia seu curso a caminho do desenvolvimento de Maricá. Em 12 de junho de 1887, seu ramal ferroviário concluiu 39.2 km de linha construída e entrou em tráfego o trecho desde a Estação do entroncamento, no Alcântara, até Itapéba, no quilômetro 34, sendo que no dia 17 de novembro de 1894 foi construída a Estação de Maricá, em seguida a estação de Nilo Peçanha, com 17 quilômetros de extensão.

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